FOBIAS
As pessoas que defendem o pastoral e a volta ao primitivo nunca se lembram, nas suas rapsódias à vida rústica, dos insetos. Sempre que ouço alguém descrever, extasiado, as delícias de um acampamento – ah, dormir no chão, fazer fogo com gravetos e ir ao banheiro atrás do arbusto – me espanto um pouco mais com a variedade humana. Somos todos da mesma espécie, mas o que encanta uns horroriza outros. Sou dos horrorizados com a privação deliberada. Muitas gerações contribuíram com seu sacrifício e seu engenho para que eu não precisasse fazer mais nada atrás do arbusto. Me sentiria um ingrato fazendo. E a verdade é que, mesmo para quem não tem os meus preconceitos, as delícias do primitivo nunca são exatamente como as descrevem. Aquela legendária casa à beira de uma praia escondida onde a civilização ainda não chegou, ou chegou mas foi corrida pelo vento, e onde tudo é bom e puro, não existe. E se existe, nunca é bem assim.
– Um paraíso! Não há nem um armazém por perto.
Quer dizer, não há acesso à aspirina, fósforos ou qualquer tipo de leitura.
– A gente dorme ouvindo o barulho do mar...
E de animais terrestres e anfíbios tentando entrar na casa para morder o seu pé. E, se morder, você morre. O antibiótico mais próximo fica a 100 quilômetros e está com a data vencida.
Não. Fico na cidade. A máxima concessão que faço à vida natural, no verão, são as bermudas. E, assim mesmo, longas. Muito curtas já é um começo de volta à selva.
(Luiz Fernando Veríssimo, Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 103-104).
1. (ICMS/SP – FCC) Atente para as seguintes afirmações:
I. O sentido da palavra pastoral, no contexto em que vem empregada, é: relativo a campo, à vida campestre, em contato direto com a natureza.
II. O cronista estabelece uma oposição, central em seu texto, entre a vida rústica no interior e o isolamento numa casa em praia deserta.
III. A pessoa que diz “– Um paraíso! Não há nem um armazém por perto” está-se valendo de profunda ironia.
Em relação ao texto, está correto SOMENTE o que se afirma em:
(A) I.
(B) II.
(C) III.
(D) I e II.
(E) II e III.
2. (ICMS/SP – FCC) Considerando-se o contexto, a frase Sou dos horrorizados com a privação deliberada deve ser entendida como uma manifestação do cronista contra
(A) a condição de pobreza e desamparo a que tantos estão submetidos.
(B) o hábito que têm as pessoas de proclamarem sua suposta miséria.
(C) a opção de renunciar às conquistas da vida urbana e civilizada.
(D) o desejo egoísta de se apartar da vida social e de seus desafios.
(E) a teimosia de muitos em ignorar a privação real em que tantos vivem.
3. (ICMS/SP – FCC) Caso houvesse no cronista a preocupação de atender rigorosamente à norma culta da língua escrita, em vez de assimilar construções mais informais da linguagem oral, ele deveria substituir
I. a expressão Me sentiria, num começo de período, por Sentir-me-ia ou Eu me sentiria.
II. a palavra onde, na frase onde a civilização ainda não chegou, por aonde.
III. a construção concessão que faço por concessão de que faço.
Está correto o que se propõe substituir em
(A) I, II e III.
(B) I e II, somente.
(C) I e III, somente.
(D) II e III, somente.
(E) II, somente.
4. (ICMS/SP – FCC) A expressão de que preenche corretamente a lacuna da frase:
(A) A privação ........ o autor não se conforma é a de itens como aspirina, fósforos e leituras.
(B) O cronista não está nada interessado num tipo de vida ........ muita gente aspira.
(C) Há detalhes desagradáveis da vida rústica ........ muita gente parece omitir, no entusiasmo de seus relatos.
(D) Muitos leitores partilharão das mesmas fobias ........ o cronista enumerou em seu texto.
(E) Há quem veja como supérfluos os recursos urbanos ........ o cronista se recusa a abrir mão.
5. (ICMS/SP – FCC) É preciso corrigir a seguinte frase, na qual há um equívoco quanto à concordância verbal:
(A) As maravilhas que se dizem a respeito de uma vida bucólica ou primitiva não parecem ter em nada animado o cronista.
(B) Não consta, entre as fobias declaradas pelo cronista, a de se sentir distante de alguém a quem o prendam laços afetivos.
(C) Não se ouvem apenas os cantos do mar, mas também os sons de insetos e animais que podem representar uma séria ameaça.
(D) Uma das convicções do bem-humorado cronista é a de que usar bermudas longas constituem a maior de suas concessões à vida natural.
(E) Fica sugerido que livros, jornais e revistas são, para o cronista, artigos de primeira necessidade, como o são fósforos ou aspirina.
Contribuição: Francisco Lima Neto
RESPOSTAS COMENTADAS
1) Gabarito: A
Comentário.
I – CERTA. “Pastoral”, segundo Aurélio, é um adjetivo que apresenta a concepção de “relativo ao campo, campestre, pastoril”. Essa é a acepção utilizada em “As pessoas que defendem o pastoral”, com a substantivação do adjetivo.
II – ERRADA. O tema central, já indicado pelo título, é a repulsa que o autor demonstrar ter em relação aos “prazeres” da vida rústica.
III – ERRADA. A ironia parte do autor do texto, Luiz Fernando Veríssimo, em relação àquele que afirma “Um paraíso! Não há nem um armazém por perto”, uma vez que, a partir da afirmação “Quer dizer, não há acesso à aspirina, fósforos ou qualquer tipo de leitura”, demonstra não ver nisso vantagem alguma.
2) Gabarito: C
Comentário.
A privação deliberada a que se refere o autor é em relação a: “dormir no chão, fazer fogo com gravetos, ir ao banheiro atrás do arbusto”. Segundo ele, as conquistas alcançadas pelas gerações passadas “contribuíram com seu sacrifício e seu engenho” para que isso não mais tivesse necessidade de acontecer.
3) Gabarito: B
Comentário.
I – CORRETA. A norma culta condena o início de período por pronome oblíquo átono, como em “Me sentiria”.
II – CORRETA. A regência do verbo chegar é transitiva indireta com a preposição “a” (lembre-se da dica: verbo que indica movimento rege preposição “a”). Essa preposição deve anteceder o pronome relativo onde, que se refere a “uma praia escondida”, ou seja, um lugar.
III – ERRADA. A troca ocasionaria um prejuízo gramatical à oração, uma vez que o pronome relativo ‘que’ se refere “concessão”, que, na oração adjetiva, exerce a função de objeto direto: “[eu] faço a concessão”. Como o verbo “fazer” é transitivo direto, não pode haver uma preposição “de” antes desse pronome relativo.
4) Gabarito: E
Comentário.
Essa é uma questão clássica da Fundação Carlos Chagas.
Para responder a essa questão, devemos observar dois aspectos: o emprego do pronome relativo adequado à construção e a exigência de preposição por algum termo regente (verbo, substantivo, adjetivo) da oração subordinada adjetiva.
Na opção (E), a expressão “abrir mão” exige a preposição “de” (Alguém abre mão DE alguma coisa). Essa preposição antecede o pronome relativo que se refere a “recursos urbanos”. Então, a lacuna deverá ser preenchida com a expressão “de que”: “Há quem veja como supérfluos os recursos urbanos de que o cronista se recusa a abrir mão”.
Vejamos as demais opções:
(A) O verbo “conformar-se” (pronominal) rege a preposição “com” (Alguém se conforma COM alguma coisa). A lacuna seria preenchida por “com que”: “A privação COM QUE o autor não se conforma é a de itens como aspirina, fósforos e leituras”.
(B) O verbo “aspirar”, no sentido de “desejar ardentemente”, rege a preposição “a”, devendo esta anteceder o pronome relativo: “O cronista não está nada interessado num tipo de vida A QUE muita gente aspira”.
(C) O verbo “omitir” é transitivo direto. Não há, portanto, nenhuma preposição antes do pronome relativo: “Há detalhes desagradáveis da vida rústica QUE muita gente parece omitir, no entusiasmo de seus relatos”.
(D) O verbo “enumerar” possui complemento direto, não devendo ser empregada nenhuma preposição antes do pronome “que”: “Muitos leitores partilharão das mesmas fobias QUE o cronista enumerou em seu texto”.
5) Gabarito: D
Comentário.
O que constitui “a maior de suas concessões à vida natural”? Resposta: usar bermudas longas. Como o sujeito é oracional (reduzido de infinitivo impessoal), o verbo fica na 3ª pessoa do singular: “Uma das convicções do bem-humorado cronista é a de que usar bermudas longas constitui a maior de suas concessões à vida natural”.
Estão corretas as demais opções. Comentaremos algumas das passagens que podem ter sido objeto de dúvidas.
(A) O pronome relativo “que” refere-se a “maravilhas”. O verbo dizer é transitivo direto. Acompanhado do pronome “se”, constrói voz passiva, cujo sujeito é “maravilhas” (certamente você não acharia “esquisita” a construção: “as maravilhas que são ditas ...”). Por isso, está correta a flexão verbal em “As maravilhas que se dizem a respeito de uma vida bucólica ou primitiva”. Em seguida, retomando o sujeito “as maravilhas”, a locução verbal se flexiona no plural: “não parecem ter em nada animado o cronista”.
(B) A passagem “a quem o prendam laços afetivos” equivale a “laços afetivos prendem-no [o cronista] a quem [a alguém]”. Como o sujeito do verbo “prender” é “laços afetivos”, está correta a concordância verbal.
(C) Mais uma vez, temos ótimos exemplos de construção de voz passiva pronominal. O verbo “ouvir” é transitivo direto. Acompanhado do pronome “se” (apassivador), deve concordar com o sujeito paciente, quais sejam: “os cantos do mar” e “os sons de insetos e animais”, justificando, assim, a flexão verbal (“Não se ouvem”). Em seguida, o pronome relativo “que” substitui o substantivo “sons” e leva o verbo “poder”, auxiliar da locução “podem representar”, para o plural.
(E) Como o sujeito de “Fica sugerido” é uma oração, o verbo está corretamente conjugado na 3ª pessoa do singular.
Simulado Português #1
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Postado por
BlasterX
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01:27
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1 comentários:
Parabéns...
Esta ficando ótimo
Rosangela Labre
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